BUSINESS E NEGÓCIOS JORNAL TOCANTINS

Sol no campo vira ativo estratégico e impulsiona nova revolução energética no agronegócio

 

Com mais de 80 milhões de hectares destinados à agricultura e uma média superior a 3 mil horas anuais de sol pleno, o Brasil reúne condições naturais excepcionais para liderar a produção de energia renovável no meio rural. Esse potencial, por muito tempo subaproveitado, começa a ser convertido em investimentos concretos, especialmente na geração de energia fotovoltaica dentro das próprias propriedades agrícolas.

Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica indicam que o consumo de energia própria no campo, por meio da geração distribuída, avançou cerca de 60% em um intervalo recente de dois anos. A potência instalada saltou de 3,5 gigawatts para 5,6 gigawatts, refletindo uma mudança estrutural na forma como produtores rurais lidam com custos, produtividade e segurança energética.

Os investimentos se espalham por todas as regiões do país, mas ganham maior intensidade no Matopiba — fronteira agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Segundo Fábio Lima, diretor executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia, é nessa região que a modernização elétrica avança de maneira mais acelerada. O uso combinado de geração solar e sistemas de armazenamento tem permitido a construção de redes mais estáveis, baratas e sustentáveis, capazes de atender demandas crescentes por irrigação, refrigeração e eletrificação de processos produtivos.

Mais do que o apelo ambiental, o principal motor dessa transformação é econômico. A geração de energia própria reduz a dependência das concessionárias, diminui o uso de geradores a diesel e garante previsibilidade ao produtor rural. Com sistemas de armazenamento por baterias, a energia gerada durante o dia pode ser utilizada à noite ou em períodos de menor insolação, ampliando a eficiência do investimento.

O custo de implantação varia conforme localização, tamanho da propriedade e perfil de consumo, mas a viabilidade econômica é considerada robusta. De acordo com Lima, o retorno financeiro ocorre, em média, entre três e cinco anos. Considerando que a vida útil dos sistemas solares gira em torno de 15 a 20 anos, o produtor passa a operar por uma década ou mais com ganhos diretos sobre o investimento inicial, reduzindo despesas operacionais e aumentando a competitividade.

Outro fator decisivo para a expansão do setor foi o avanço regulatório. A sanção da Lei 15.269, conhecida como Reforma do Setor Elétrico, trouxe maior segurança jurídica ao mercado de energia limpa. A legislação estabelece novas regras para o setor, com foco na redução de tarifas, garantia do suprimento energético, regulamentação do armazenamento de energia e facilitação da comercialização. A norma foi sancionada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, no exercício da Presidência da República, e é vista como um marco para destravar investimentos.

Apesar da rápida modernização tecnológica no campo — com o uso crescente de máquinas automatizadas, drones e sistemas elétricos de irrigação —, o consumo rural ainda representa uma parcela modesta do total nacional. Levantamento da Empresa de Pesquisa Energética aponta que menos de 6% da energia elétrica consumida no país ocorre em zonas rurais, indicando amplo espaço para crescimento.

O avanço da energia solar no agronegócio sinaliza mais do que uma tendência passageira. Ele revela uma mudança profunda na lógica produtiva do campo brasileiro, onde sustentabilidade, autonomia energética e eficiência econômica passam a caminhar juntas, transformando o sol em um dos ativos mais valiosos da nova agricultura nacional.